Dia 4 – De Pedrogão Pequeno a Brotas

Como vem sendo hábito quisemos partir cedo, mas não sem antes apreciarmos a vista do alto do Miradouro de Nossa Senhora da Confiança, em Pedrogão Pequeno, que nos encheu as medidas com uma vista única sobre o Zêzere. Apesar da vista estar a ser uma maravilha, tínhamos mesmo de seguir viagem e, desta vez, rumo à Sertã. Encontrámos a agitação normal de um dia de semana, mas o seu chamado Parque da Carvalha (junto ao marco do Km 343) convidou-nos a um passeio à sombra e a saborear a tranquilidade ali existente, permitindo-nos apreciar também a histórica ponte da Carvalha que ali se encontra. 

Seguimos caminho em direção ao marco geodésico que fica perto de Vila de Rei e que, do alto dos seus 592 metros, marca o centro geodésico de Portugal (Km 364). Dissemos, por brincadeira, que estávamos no centro do “mundo”, no centro do nosso “refúgio”, um país que agora (mais do que nunca) nos abria os braços para o percorrermos de lés a lés. Aqui encontra-se o Museu da Geodesia, que nos carimbou a passagem, em mais uma registo para não mais esquecermos. 

Um pouco depois da localidade de Vila de Rei atingimos um marco importante, o do Km 369,630, que marca precisamente o ponto central da mítica Estrada Nacional 2 (N2). Ainda só íamos a meio e já tínhamos tanta coisa vivida e para contar. Parece que tudo aquilo que nos foram dizendo desta estrada era bem verdade e estávamos a confirmá-lo da melhor maneira!

O sol ia alto e o dia de calor ameaçava ser ainda “pior” que o anterior. Não resistimos a uma paragem na simpática vila do Sardoal (Km 384), mais propriamente no “Potes Bar”, que nos tinham referenciado no guia da “Foge Comigo” como tendo as “melhores tostas da N2”. Sejamos sinceros, é impossível resistir a uma boa tosta e a um bom refrigerante (e água, muita água) num dia de calor como este. Realmente, as tostas eram óptimas e ENORMES! Vimos dispostos sobre o balcão alguns cartazes sobre os tapetes de flores únicos que aqui se fazem por altura da Páscoa… Certamente temos de cá voltar por essa altura para podermos apreciar estas maravilhas! Carimbámos também aqui a passagem e seguimos a viagem.

Seguiu-se a cidade de Abrantes, que se encontra após o Km 396 da N2. Se dissermos que tínhamos o carro a marcar 41°C não estamos a mentir… Isto fez com que não conseguíssemos desfrutar tão bem da cidade, mas ainda assim conseguimos ver a sua zona antiga junto ao castelo, que se ali se ergue imponente, e fomos “salvos” pelo ar condicionado do Posto de Turismo, onde aproveitámos carimbar o guia e o passaporte. 

Aqui perto, num pequeno desvio à N2, a Barragem de Castelo de Bode chamava por nós. As cores azuis fortes do seu lago eram um espelho da cor do céu, e as sombras da sua margem convidaram-nos a uma paragem para refrescar. Parecia termos encontrado um sítio mais pacato, onde apenas alguns jovens se encontravam reunidos, também eles com a intenção de esquecer as temperaturas enormes que se faziam sentir. No meio da pacatez deste momento, somos repentinamente interrompidos por aviões que, em baixa altitude, se dirigiram às águas do lago para reabastecer. Tínhamos incêndio por perto e estes bravos “soldados” utilizavam todos os meios para o combater. É impressionante como esta região (entre outras de Portugal), ano após ano, sofre tanto com este flagelo. 

Foi a nossa deixa para ir andando e, entre a azáfama dos aviões, dirigimo-nos para o Cais de Tancos, onde tínhamos encontro marcado com a Tritejo, para um passeio de barco no Tejo e uma visita ao Castelo de Almourol. Eram já 17:00 mas o calor continuava intenso, mas nada que a boa disposição do Paulo (nosso comandante de embarcação), não fizesse esquecer. Num barco movido a energia solar, o único som que ouvíamos era mesmo o das aves em redor e da ondulação, juntamente com toda a introdução histórica do castelo e da ordem templária, com a qual o nosso “capitão” nos transportou para os tempos áureos desta ordem nesta mesma região. Foi, sem dúvida, um dos pontos altos deste dia!

Com tudo isto, o dia ia avançado e a viagem tinha de ser feita ainda até à região de Mora, onde íamos pernoitar. Depois da visita a Almourol e de nos despedirmos do Paulo, arrancámos em direção a sul. Ainda estávamos a passar a placa que informava da saída do concelho de Abrantes e já a paisagem começava a mudar, começando a a assumir as cores que associamos ao “Além Tejo”… E era precisamente aí que estávamos a entrar.  Junto ao Km 435, encontramos a cidade de Ponte de Sor onde fizemos uma curta paragem. Também aqui os Bombeiros nos receberam para carimbar o passaporte e o guia (que está cada vez mais fantástico, com todos estes registos) e elucidaram-nos sobre três locais que aqui queríamos ainda ver: os murais “A Cura” e “Nossa Senhora da Cortiça”, bem como a ponte pedonal com a sua arquitectura singular.

Depois disto, tínhamos mesmo de seguir para Mora. As cores de fim de dia assumiam um dourado único, que se mostraram ainda mais especiais sobre toda a zona do do lago da barragem de Montargil e da extensão de plátanos que durante Km nos abraçaram ao longo da estrada. 

Passando Mora (Km 474), chegámos finalmente a Brotas (Km 488), onde iríamos pernoitar nas “Casas da Romaria”. A simpática proprietária, a Dona Maria do Rosário, já lá se encontrava à nossa espera, na histórica rua da Igreja desta localidade, onde ficava o nosso alojamento. Infelizmente, a pressa com que chegámos, para não falharmos as horas reservadas para jantarmos no único restaurante de Brotas, não deixaram que conversássemos com calma com a Dona Maria, que orgulhosamente nos ia explicando e chamando à atenção ao longo da rua para os detalhes e os anos de construção de cada casa ali existente, algumas delas a datarem do século XV… Largámos as coisas rapidamente no alojamento e seguimos para o restaurante “O Poço”, um pouco mais acima. A proprietária esperava-nos, seríamos já os últimos clientes do dia para o jantar, mas a simpatia e boa disposição imperaram desde o início, mesmo que as máscaras que agora mantemos colocadas nos cortem tanto da linguagem não verbal… Entre umas migas divinais e vinho da casa, estivemos ali bem mais de duas horas, em amena conversa com a Carina (que viemos depois a saber o nome), onde se partilharam histórias e aventuras de gente que por ali foi passando também a percorrer a N2, num espirito inexplicável, quase dando a sensação que éramos três amigos de longa data a pôr a conversa em dia. A genuinidade e simplicidade que encontrámos em Brotas não tem explicação! As horas iam avançadas e despedimo-nos, prometendo voltar um dia sem as máscaras, para que pudéssemos “ver-nos uns aos outros”. Que esse dia não demore a chegar!

O dia tinha sido imenso, intenso e de altas temperaturas. Voltámos ao nosso alojamento, onde dois habitantes se encontravam na rua, agarrados a um pequeno rádio, a ouvir o relato do Porto-Sporting que jogavam por aquela altura. O ruído do rádio e de algumas televisões das casas por onde íamos passando eram os únicos sons que interrompiam o silêncio da noite. Sentimo-nos quase numa daquelas aldeias que vemos nos filmes do Portugal de antigamente, mas aqui tudo era bem real, puro e simples, coisas (infelizmente) tão difíceis de encontrar em pleno século XXI. Eram já perto das 23:00 e não resistimos a aproveitar ainda as temperaturas óptimas que se faziam sentir na rua. De máquina em punho, fotografámos detalhes da rua e um dos senhores que tínhamos visto de rádio na mão vem ter connosco para nos pôr a par das novidades do futebol, parecia que o Porto tinha marcado e havia novo campeão nacional. Caminhou por momentos ao nosso lado, falando da temperatura do dia (que pelos vistos poderia ser pior quando vêm os ares de Espanha) e soltando que mesmo assim durante a noite, estava-se “melhor na rua do que dentro de casa… Ainda há quem diga que só faz calor na Amareleja!”. Na simplicidade da conversa, falou-nos da lenda da Igreja de Nossa Senhora das Brotas ali existente, na qual “só acreditava quem queria”. Por entre as despedidas possíveis em época de COVID, ficámos com a sensação que não passaríamos sem voltar aqui um dia, nem que fosse apenas para sentirmos este calor humano que, sem dúvida, nos fortaleceu o espírito. 

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